Ano 2020, mês de agosto, o frio chega para alguns brasileiros, as chuvas e vendavais para outros, alagamentos invadem casas e comunidades inteiras, a seca segue pujante para tantos outros milhares de cidadãos e cidadãs deste país. Para os “meninos mimados” que não poderiam, mas regem a nação, todos se resumem a subcidadãos.

Assolados por um pandemônio imprestável e abandonados em uma crise pandêmica. Cinemateca nacional fechada! Nós, a classe média letrada, mergulhados no mar das lives. Estamos combatendo a alienação, alienados. Fantasiados pela possibilidade de ser o próprio espetáculo. Encantados pela potência Tec. Assim como o agro, que é tec, que é pop, que é tóxico, como diria Boulos. Tecnofetichismo. Mal sabia Levy, que viriam o terceiro, o quarto, o quinto naufrágio, e contando. Afogados nas redes. Sufocados nas ruas, nas casas, nas palafitas, nos morros, nas favelas, nos nossos sonhos da casa própria de 40m². Autoexplorados. Esgotados. Isolados. Distantes. Sem carne na carne. Sem pele na pele. Sem corpo no corpo. Ciborgue com ciborgue. Lives, lives, lives, lives, “laives”, ao vivos, streamings... aos mortos! Luto! 115 mil e contando! Silêncio! Lives, lives, lives, lives... que os deuses e os orixás livrem nossas lifes dessas lives, dessa pandemia, desse pandemônio. E a arte? Ahhh, a Arte! A primeira, a segunda, a terceira, a quarta... a Sétima Arte.

O projeto CinemaTeca – CBCE é uma abertura de janela do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte para a sétima arte. Um antídoto contra a realidade solapante. Uma alternativa de fuga do exílio forçado ou um antidestino, como diria Brennand. Ao trazermos o cinema para dentro do CBCE pretendemos ir para o tempo e o espaço do silêncio. Para a não-sonoridade necessária às longas e consistentes reflexões sobre e com os corpos-no-mundo. Para os cantos vividos e não-vividos. Uma busca pela intensificação da vida. Uma arqueologia audiovisual com a mirada na libertação humana.

Todos os associados e associadas, por meio das suas secretarias estaduais e GTTs, estão convidados a construir o Projeto CinemaTeca-CBCE com sugestões de filmes, longas ou curtas, e com debates em torno de alguma película que nos toque, que touch nos corpos das infâncias, nos corpos da educação, nos corpos do trabalho, nos corpos do lazer, nos corpos esportivos e não-esportivos, nos corpos treinados e não-treinados, nos corpos negros, indígenas, ribeirinhos, nos corpos desiguais, nos corpos digitais, nos corpos-no-mundo.

Neste início o intuito é construirmos a CinemaTeca a partir das sugestões dos associados e associadas e promovermos salas virtuais de exibição. Sendo assim, pretendemos ir construindo, durante e pós-pandemia, uma gama de produções audiovisuais, que representem as demandas oriundas das reflexões emergidas no interior dos GTT´s e Secretarias Estaduais. A ideia é que possamos veicular, debater e até estimular a produção de vídeos no âmbito das Ciências Humanas e Sociais, em especial, das Ciências do Esporte. Nesse sentido, pensamos, a princípio, organizar apresentações com debates e festivais de curtas e longa metragens, que abarquem as diversas problemáticas da área, em articulação com as diversas categorias sociológicas, também inter-relacionadas entre si, tais como classe, gênero, raça/etnia, cultura, geração, e outras.

Para tanto, apenas à guisa de “ponta pé inicial”, para depois, construir coletivamente a programação, sugerimos iniciar nossa primeira sessão de cinema com o curta “Da Hora” e seus meninos de Recife”, dirigido por Mauricio Roberto da Silva. A partir desse momento de lançamento, recolheremos as sugestões dos GTT´s e dos associados que participarão da “primeira sessão” a ser realizada no dia 28/08/2020, às 18 horas.


Campo Grande-MS, Porto Alegre-RS e Florianópolis-SC,
28 de agosto de 2020,
Silvan Menezes dos Santos e Mayara Maia,
com inspiração e colaboração de Maurício Roberto da Silva.

 

CinemaTeca

“DA HORA” e seus Meninos do Recife

Direção: Maurício Roberto da Silva